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Carlos Alberto Omena






A MORTE DE "ZÉ PREÁ "

“Zé Preá” morreu! “Zé Preá” morreu!
Mataram “Zé preá”! ” Zé Preá” morreu!
Foi gritando assim esbaforido e ofegante que Romeu entrou na cidade.
“Zé Preá” era uma dessas pessoas pitorescas que existem em todas as cidades e que acabam ficando conhecida por todos.
Ele era o ponto de referência na região e os habitantes do mais novo ao mais idoso conheciam e gostavam muito do “Zé Preá” pois,apesar de ser um andarilho e morar na rua, era atencioso,cortês,educado e, sempre que se precisasse, estava pronto a ajudar. Em gratidão a população local dava-lhe roupas e comida.
Mas agora “ Zé Preá” estava morto.Pelo menos eram os rumores que corriam na cidade.
Afinal,de que morrera o infeliz ? Porque matar um homem daqueles que sequer fez mal a alguém?
Ao questionar o portador da malfadada notícia, Romeu explicou que estava enchendo a cara com  o “Zé “ na mata  quando saiu para buscar mais aguardente e quando voltou simplesmente encontrou o corpo do amigo largado embaixo de um coqueiro.Apavorado ,resolveu voltar à cidade e contar a notícia.
Refeito do susto inicial, um grupo de moradores acompanhados por Romeu resolveu ir à mata e resgatar o corpo do desvalido para ao menos dar-lhe em velório e um enterro digno.
A população toda se mobilizou sem demora providenciando caixão,velas,flores e até o salão da igreja foi cedido pelo padre local para que o pobre  fosse velado.
Lá pelas tantas da madrugada,ao meio da ladainha das rezadeiras,do choro da mulherada, a prosa em tom baixo e respeitoso dos homens , interrompida às vezes para uma boa “ lapada” de aguardente da boa,algo muito estranho aconteceu.
Um dos presentes ao aproximar do caixão para um último adeus ao falecido, arregalou os olhos,arrepiou os cabelos e num esforço incomum gritou:
-“Zé Preá” mexeu!
Foi um pandemônio geral.Era mulher correndo de um lado, homem gritando de outro, o padre que estava bem próximo fazendo suas orações nem pestanejou .Levantou a batina e se pôs  em disparada berrando alucinado: Virgem Maria,valei-me,“Zé preá mexeu!,”Zé Preá” mexeu!
Não ficou ninguém no velório,só  o morto,coitado.
Passado o susto, o grupo fujão,desconfiado,com medo, começam um a um a voltar à igreja e para surpresa geral encontram “Zé Preá” sentado no caixão,ainda com algodão no nariz e xingando a todos pela brincadeira.
Um dos presentes,mais afoito,numa rara demonstração de coragem ,cria forças e pergunta:
-“Zé Preá”,tu não morreu ?
- Morri coisa nenhuma seus malucos ! e continua:
-A única coisa que me lembro é que eu estava na mata embaixo de um coqueiro tomando uma cachaçada para me  aquecer quando um côco caiu na minha cabeça e só acordei agora nesse lugar apertado e coberto de flores.
Até hoje “Zé Preá” perambula pela cidade e sempre que alguém lembra o episódio de sua morte,desconversam ,envergonhados do mico que pagaram.

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