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Beatriz Oliveira






Diálogo

            Não espero que você me entenda. Mentira. Eu espero sim, eu quero sim. Tudo o que eu queria era olhar para você e encontrar um velho e confortável olhar compreensivo. Mas eu sei que não posso, se nem eu me entendo. Só entendo partes de mim, partes feias de mim. Então, mudei de idéia, não quero que você veja as partes feias. Se quiser me entender, que entenda as partes bonitas. É, eu sei, também acho difícil encontrá-las, parecem estar corrompidas.
            Pára de mandar que eu não tenha medo. Eu tenho medo, tenho muito medo. Não sei não ter, nem vou deixar de tê-lo. Me conheço, meu caro. Pouco, mas conheço. Estão tentando me tirar da minha zona de conforto, e isso não é bom. Não sei se quero sair agora, lá fora não é tão bonito quanto nos filmes e nos sonhos infantis. O terninho e a saia lápis não caíram tão bem. Engoliram-me, digeriram-me e agora o que farão de mim? O banheiro é logo ali. Viu? Eu também não gosto de pensar nisso. Não acho agradável.
            Andam dizendo que está ficando tarde demais, e talvez estejam certos. Não é hora de ficar parada onde o pequeno é muito pequeno e eu sou grande demais. Mas é bom, é bom me sentir mais forte e mais capaz. Não quero me sentir pequena demais, nem me esforçar para lutar contra quem já é grande, tão grande que não me vê, tão grande que pisa em mim. Me esmaga e me esquece na sola do sapato novo, do sapato caro. O sapato do poder.
            Também não quero um escudo para me proteger de cada boca faminta e cada sapato caro do poder, não quero me esconder. Já disse, não lembra? Não quero me esconder e não quero sair lá fora. Se isso sou eu inventando mais umtradeoff? Não concordo que seja invenção. O engraçado é que eu acabo fazendo a escolha errada sempre. Odeio o fracasso. É mais que isso, eu o detesto. Que importa se eu nem sabia se era o que eu queria? Ter sucesso é necessário mesmo quando não se sabe o que quer. Ou então o quê? Ser nada? Não é para mim. Não ser nada me transformaria em uma falha de mercado, mundo, não importa! Uma falha e pronto. Quer mais abobrinha para quê? Já é ruim o suficiente.
            Sou exigente sim. Chama-se auto-crítica. Gera o perfeccionismo. Já ouviu falar? E em excesso, claro, a auto-depreciação. Isso tudo por medo do mundo. Os prédios são tão altos, e o seu currículo tão extenso. Você não tem vergonha de me humilhar assim? Isso se chama prepotência, sabia? É muita pretensão sua não se sentir mal com o meu medo. É tudo culpa sua, mundão.


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