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MARCOS DAVID BITTENCOURT LEAL






O Lobisomem


 
 
   Era noite de agosto, escura e fria, no manto celestial não se via uma so estrela perdida na imensidão do firmamento.
   Reunidos em frente duma pequena fogueira, no imenso pátio da fazenda Nogueira, encontrava-se quase que por rotina todos os peões o proprietário e alguns fazendeiros mais íntimos das proximidades.
  • Ò Zé, vai la em casa, pede a patroa para mandar o café e os copos, pra vê se esquenta um pouco, o frio ta danado.
  • Sim seu Coroné.
  Responde o garoto saindo aos pulos com destino a casa grande.
  A casa grande era um imenso sobrado, situado bem no alto do grande pátio. Construção antiga no estilo romano com um enorme varandado na parte dianteira. Um pouco alem estava um agromerados de pequenas casas habitada pelos peões e seus familiares  da fazenda e um galpão  onde na parte inferior era utilizado como armazém e deposito e na superior como alojamento para os que não tinha família.
   Para a retaguarda da casa principal localizava-se o curral mais alem um pequeno galinheiro, em que todos os dias o pequeno Jose incubido de cuidar de todas as galinhas e perus da fazenda, cumpria sua faina diária, prendia todas as aves que por rotina agrupavam-se à frente da rústica construção esperando a ultima refeição do dia.
  Ao amanhecer nas primeiras horas da matina, Jose abre a  porta do galinheiro soltando a bicharada, que após a distribuição da ração espalham-se pelo terreiro, para a tardinha começar tudo novamente.
  Após esta tarefa ele verifica quase que automaticamente  todos os ninhos, as chocadeiras para vê se estava tudo em ordem, depois de recolher todos os ovos, colocando-os cuidadosamente numa cesta, levava para a negra Sinhá na cozinha da casa grande.
  • Seu Coroné, a Dona Sinhá disse que já vem com o café, ela esta acabando de passar.
   Disse o garoto com a voz contida e arrastada do povo daquela região nordestina, sentando-se novamente no local onde ocupava anteriormente.
  • Zé, tu já contou ao seu coroné o que se assucedeu no galinheiro hoje pela manha?
  • Não Sinhô.
Respondeu o garoto cabisbaixo.
  • Então conta ne?
Retrucou seu pai sentado do outro lado da fogueira, com um avantajado cigarro de palha de milho.
  • O que foi que tu  fizeste moleque desta vez, vamos conta, ta com medo?
Perguntou o fazendeiro.
  • Não Sinhô!
  • Então desembucha.
O garoto um tanto embaraçado, tenta explicar o fato.
  • Não foi eu seu Coroné, eu juro.
Balbuciou o menino já de pe com a voz tremula de medo.
Continuou.
  • Eu fui abrir o galinheiro se Coroné e tinha um bocado de ovos quebrado e duas galinhas comidas de bicho.
 Comentou o garoto olhando por baixo dos olhos.
  • Vem cá moleque me conta esta historia direito.
O garoto aproximou-se mais um pouco.
  • Vem senta aqui.
  Vozeou o fazendeiro batendo a mão de leve no acento do banco.
 Ele sentou-se o fitou com seus grandes olhos negros, que brilhavam com intensidade refletindo o clarão da fogueira. E relatou pela segunda vez o ocorrido na manha passada.
 
  O Coronel Crispim Nogueira já nos seus setenta e seis anos, sempre foi paciente com todos os seus empregados, tinha um carisma incalculável por todas as crianças da fazenda, talvez pela falta que fazia um filho na sua vida, sua esposa Dona Eulália por motivos superiores não tivera a sorte de ter os filhos tão esperado pelo marido. Motivado por isso talvez ele tratava todas as crianças dali como se fossem seus próprios filhos, não admitia de hipótese alguma, que os pais as maltratassem em sua presença.
  A conversa desenrolava-se em torno do fato ocorrido no galinheiro, as opiniões eram diversas.
  • Isso só deve ser coisa de raposa!
  Comentou um peão.
  • Como ele poderia abrir a porta, já que o menino diz ter fechado à noite?
Perguntou um outro sentado afastado da fogueira.
  • Pode ter sido um Sarigué. Quem sabe! Falou um outro.
A conversa é interrompida com o baque da cancela e o trote de um cavalo aproximando-se.
  • Quem vem lá?
  • Boa noite.
Cumprimentou o cavaleiro aproximando-se mais da claridade.
  • Mais veja não é o compadre.
Disse o fazendeiro.
  • Vamos apeia homem!
  • Vem tomar um pouco de café quente.
O Visitante desmontou da sua montaria, um peão aproximou-se pegou os arreios e a capa   do cavalheiro e afastou-se puxando o cavalo.
  • Quais são as novidades?
Indagou, sentando-se num banco oferecido pelo anfitrião e estendendo a caneca para o café.
  • Está tudo em paz, graças a Deus.
  • E por lá, como está indo as coisas?
  • O gado está indo muito bem, ainda ontem nasceu dois mamotes,gordos que só vendo, a patroa é que anda aperreada, tem um bicha dando nas galinhas dela. Já se foram seis, sem levar em conta os ovos quebrados.
  • Mais compadre a gente estava acabando de falar nisso agorinha mesmo, ontem se foram duas, e quase uma dúzia de ovos, em um só dia.
  • Mas que diabo será isso Compadre?
Interrogou o coronel, aquecendo as mãos na labareda da fogueira.
  • Seja lá o que for, já encobri o João lobisomem para cuidar disso.
  • E que esse tal de Lobisomem?
Quis saber o Coronel Nogueira.
  • Há!... É um pobre coitado que chegou lá na semana passada, pedindo trabalho.
Continuou:
  • Chegou de fazer pena compadre, amarelo que nem uma lesma, a meninada já colocou o nome de João Lobisomem. Você sabe como é menino, né!
Prosseguiu o fazendeiro vizinho.
  • Olha se eu acreditasse nessa baboseira de lobisomem, diria que aquele cabra é um deles, o miserável tem uma barba, o cabelo nem se fala.
  • Mais existe lobisomem, seu coroné!
  • Que lobisomem que nada moço.Onde já se viu homem virar bicho.
Resmungou o Coronel Tobias irritado com a afirmação de um peão.
 
No passar de duas semanas...
Setembro, a primavera começava a desabrochar os cravos em lindas flores, mais estraladas e a lua cheia mais constante.
A fogueira já não mais fazia parte das reuniões noturna dos peões e de seus patrões na fazenda do coronel Nogueira, aquilo acontecia há muito tempo, já que não se tinha uma outra diversão naquelas bandas longínquas do sertão nordestino.
Energia elétrica era coisa de cidade grande, televisão, muitos ali se quer sabiam o que era, estudar, pra que? Gente do campo nasce pra labutar com a enxada e cuidar do gado dos seus patrões.
  • Compadre. Ainda que mal lhe pergunte, as galinhas da sua patroa, bicho ainda anda comendo?
  • Não Compadre, depois que coloquei o João Lobisomem para cuidar do galinheiro, bicho não tem ido lá não.
  • Pois é aqui o desgracado anda acabando com tudo, o pior compadre é que agente não sabe nunca quando ele entra nem sai, não se escuta nada que chame a atenção da gente, só se vê a desgraceira dia seguinte.
  • Mais Nogueira, lá na fazenda ta a mesma coisa.
Retruca um outro fazendeiro vizinho, sentado ao lado do coronel Tobias.
  • Na manha de hoje o menino achou uma galinha toda dilacerada no terreiro.
  • O interessante de tudo isso, é que nada se vê, nem cachorro dá alarme, nem galinha
Cacareja, nada!…
Comentou o Coronel Nogueira, levantando para colocar café no caneco.
  • E lá que as bichinhas dormem no tempo, vai terminar acabando com todas elas, se eu não tomar uma providencia...
Volta a falar o anfitrião ao lado do Coronel Tobias.
Um peão sentado nas proximidades escutava a conversa, calmamente tira o cachimbo dos lábios, solta a fumaça para o ar e fala em voz baixa.
  • Inda acho que isso é coisa de lobisomem!
  • Deixa de falar asneiras, Nego.
Responde O coronel Nogueira, sentado em um banco à sua frente.
Apertando a brasa do cachimbo com o polegar, de cabeça baixa continuou:
  • Coroné, o sinhô pode inté não acreditar, mas as galinhas que estão morrendo não e coisa de bicho de mato não.
Prosseguiu:
  • Ainda ontem pela manhãzinha fui ao açugue do seu Jessé na fazenda do seu Ananias, e ele tava comentando que alguém anda rondando por lá à noite.
  • O meu falecido avo dizia que cachorro não  late para lobisomem não.
  • E tem mais coroné 
Acrescentou o negro levando o cachimbo à boca, fazendo uma pequena pausa.
  • O coroné Tobias disse que na fazenda dele depois que o tal João Lobisomem passou a cuidar do galinheiro, as galinhas não sumiram mais as dele, o sinhô acha que ele vai comer as cria do próprio terreiro?
 
O Fazendeiro manteve-se calado e pensativo refletindo em tudo aquilo que negro havia falado.
E de súbito:
  • Compadre!
  • Amanha irei ver este tal de João Lobisomem.
E votando-se para o negro que continuava sentado no chão falou:
  • E tu Negro, o que sabes mais a respeito de lobisomem?
O Negro começou a falar tudo que sabia sobre o fenômeno e todos os escutava com muita atenção.
 
Havia passado quase quinze dias e a situaçao era a mesma, o mistério continuava no ar.
Os fazendeiros resolveram que todas as noites ficariam de guarda dois homens nos locais mais freqüentados pelo misterioso animal.
Certa noite encontrava-se reunidos como de costume , no pátio em frente à casa grande da fazenda Nogueira. O coronel Tobias alguns outros fazendeiros das proximidades, e um grupo de peões e o proprietário da fazenda, dialogando e comentando sobre os ocorridos dos últimos dias.
Quando de repente um peão chega aos gritos, com uma espingarda de dois canos em punho.
  • Coroné, Coroné!...
E parou diante do grupo reunidos nas proximidades da escada de entrada da casa grande.
  • Vamos Coroné, corre o danado está dentro do galinheiro. Deixei o nego na tocaia, e sai a toda para chamar vosmeces.
Foi geral a euforia, ninguém sabia exatamente o que fazer.
  • Calma, calma!...
Gritava o coronel no degrau superior da escada.
  • O que vamos fazer compadre?
  • Espera ai, homem!
Disse o coronel, virando-se para a entrada da casa e voltando em seguida com uma pistola e uma espingarda de grosso calibre. Entregando a espingarda para seu  compadre, falou para todos.
  • Seja lá o que for, vamos acabar com isso de uma vez por todas.
  • Vamos embora pessoal, não façam barulho para não espantar o infeliz.
Seguiram em silencio para as proximidades do galinheiro onde se encontrava o Negro na tocaia da tão falada criatura.
E já próximos do local ouve-se um disparo e os gritos do negro aterrorizado.
  • Coroné, Coroné, aqui!...
O barulho de galhos quebrado, cacarejar das galinhas assustadas e o uivo tenebroso dum animal em disparada  mato à dentro, completando a balburdia a gritaria dos peões no encalço do suposto animal.
  • Por aqui pessoal!
  • Aqui Coroné!
Indicou o negro seguindo na frente do grupo.
Andaram quase um quilometro por dentro do matagal com tochas em punho clareando o caminho.
Sempre à frente do grupo, o negro, em uma pequena clareira, no meio de toda àquela vegetação, aponta  com o indicador para o chão, clareando com uma tocha.
  • Olha, Coroné, olha isso aqui!
Após formarem um circulo em volta do local.
  • É sangue, o desgracado parou aqui.
  • Você viu o que foi Nego?
Perguntou Tobias, agachando para observar melhor.
  • Claro que vi seu Coroné, então o senhor acha que eu ia atirar à toa, ta ai a resposta.
Respondeu o negro, apontando para a mancha de sangue no chão.
  • Seu Coroné o bicho parecia um macaco, grande e todo cheio de pelo que nem um tamanduá, os olhos brilhava feito brasa no escuro.
Falava sem parar o negro no centro do grupo que havia seguido no encalço do misterioso animal.
  • Mais quando ele botou a cara pra fora do galinheiro, eu mandei chumbo, o desgracado é ligeiro por demais, o tiro não pegou como eu queria, ele saiu feito uma mula doída por dentro do mato à fora.
Falava ele a gesticular demasiadamente.
O líder do grupo que até o momento manteve-se calado e sereno diante de toda aquela euforia comentou, tocado levemente no ombro de seu compadre.
  • É esta tudo muito confuso.
Ele nada respondeu, limitando-se apenas a balançar a cabeça afirmativamente.
  • Bom o que ta feito, ta feito, vamos para casa que é o mais sensato agora.
No dia seguinte na fazenda dom Coronel Crispim.
  • Nego!...
Grita o Coronel.
  • Sim Sinhô, seu Coroné.
  • Vai ao campo e me traz meu cavalo.
  • Sim seu Coroné.
E saiu a passos largos, para em meia hora voltar puxando pela rédea um magnífico alazão, que exiba garboso sua cela vaqueira em acabamento de prata e metal dourado.
  • Ta tudo pronto seu Corona.
O cavaleiro ajustou as esporas também em pura prata, passou a perna em sua montaria e saiu em disparada para a cancela de saída da fazenda.
 
  • Dia Rubião!
  • Dia seu Coroné.
  • Onde está seu patrão?
  • Ta na sede seu coroné, o sinhô quer que chame?
  • Não rapaz, sei o caminho irei até lá.
Murmurou o coronel, acenando com a mão, afastando a montaria a trote lento.
  • Bom dia Compadre!
Cumprimentou o visitante montado em seu alazão gigante.
E do alpendre da casa, com uma caneca chamejando na mão.
  • Apeia Homem, sobe vamos tomar um cafezinho foi, passado agorinha mesmo.
Fez uma pequena pausa.
  • Já sei o motivo da sua visita tão sedo aqui.
  • É Compadre, quero tirar minhas dúvidas.
Continuou:
  • Passei a noite inteira sem pregar os olhos, esperando o amanhecer.
  • Vamos resolver isso de uma vez por todas.
Disse o Coronel Tobias, colocando a caneca no corrimão da varanda e descendo os degraus.
da escada para o pátio.
  • Ei, menino!
  • Sinhô, seu coroné.
  • Você viu o João Lobisomem por ai?
  • Não sinhô.
Respondeu dolentimente o garoto, retirando-se em seguida em direção a um riacho que corria a alguns metros dali.
  • Vamos compadre talvez ele esteja no curral, ele costuma andar por lá ajudando o Jeremias na ordenha.
  • Bom dia Jeremias!
  • Dia seu Coroné.
  • Você viu o João por aqui hoje?
Perguntaram quase que ao mesmo tempo.
  • Vi não sinhô,
  • Ele costuma aparecer cedinho, mais inté agora.
Respondeu o vaqueiro agachado aos pés de uma vaca tirando leite calmamente.
O fazendeiro parou um pouco e ficou pensativo, pois sabia que ali no curral era o local mais freqüentado pelo rapaz no amanhecer de cada dia.
  • É... Já que ele não apareceu, vamos até o barraco dele.
Desceram para o caminho onde o garoto havia seguido alguns minutos atrás. Passaram sobre uma pequena ponte no leito do riacho, e seguiram a uns quinhentos metros mais adiante.
O Coronel Nogueira que seguia a passos lentos na retaguarda, indagou:
  • É um lugar um tanto esquisito para se morar, não acha Compadre?
  • Acho Compadre. O interessante é que ele poderia dormir lá no galpão com os outros peões.
  • Mias não sei porque quis ficar aqui. Esse barraco mandei fazer quando o pessoal estava reformando a cerca com sua divisa. Que era para guardar os materiais e as ferramentas pra não precisar levar todos os dias para a sede.
  • Entendo.
Seguiram sem mais nada comentar.
  • É aqui Compadre.
Disse o fazendeiro apontando para um rancho de palha logo à sua frente.
  • Seu João! Seu João!
  • Seu João, o senhor está ai?
Chamaram em voz alta.
  • Acho que ele não está ai não!
Disse o Coronel Nogueira confuso.
  • E agora o que vamos fazer?
  • Bom se ele não sai. Vamos nós.
Respondeu o fazendeiro com uma pistola em punho, empurrando a porta do casebre com violência.
No interior o ambiente estava na penumbra, a falta de janelas dificultava a incidência dos raios solares, reduzindo a iluminação.Não houve necessidade que entrassem, pois dali mesmo dava para observar toda a parte interna do barraco.
Num dos cantos uma tábua usada como cama, forrada com palhas de bananeiras e alguns trapos como cobertor. Um  pouco para trás três pedras formava uma fogueira sustentando uma lata sobre algumas achas de lenhas queimadas. Era ai a casa de João lobisomem, alcunha batizada pela garotada da fazenda quando ele chegou pedindo trabalho.
Que havia desaparecido sinistramente sem deixar vestígio, nem algo que o identificasse posteriormente.
Os fazendeiros pararam por algum tempo.
  • É Compadre, se contarmos isso para alguém mais tarde, com certeza vão rir  e chamarmos de velhos mentirosos.
Disse o coronel Nogueira  após sair fechando a às costas...
          
 
    
 

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