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Jânio Henrique Tezza






Mulheres

       Olhou em volta, quis conversar, mas avistou só as duas empregadas. A do café, e a do telefone.A índole machista que lhe assistia não permite um diálogo saudável com nenhuma delas. Estava amargurado, perdido, desorientado. Ou simplesmente queria uma desculpa pra beber.  Enumerou os amigos na cabeça: casado, morto, morando distante... O Alcides! Batata. Era ele mesmo. Pediu para a secretária fazer a ligação:
       - Alou?
       - E aí meu chapa?
       - Chapa? Jair? Não acredito! O que deu na sua barriga pra me ligar?
       Pronto. Está feito. Eram amigos de infância, afastados por razões matrimoniais. As mulheres se detestavam. Talvez porque elas se deram 
muito bem, logo que se conheceram.  Coisa de mulher. Os dois viviam bêbados, caídos por aí, mas elas juravam que um acobertava a falcatrua do outro.  As intrigas das duas não se justificavam, até um basta, que aconteceu num churrasquinho.
      - Alcides, agarra sua mulher!
      - Estou tentando, estou tentando! Ahhhrr!! Meus olhos!
      - É farofa com pimenta cara, cuidado!
      - Ahhhrrrgg! (...)
      Elas viraram o diabo. Coisa de mulher. Eles se encontravam ás vezes, mas não como antes. Foram se afastando. Gradativamente. Já haviam passado da fase de telefonemas natalícios e de aniversário. Chegaram a discutir, cada qual defendendo sua algoz, mas parecia que nenhum guardava rancor. Estavam se falando outra vez. O dois disseram querer conversar, chamar a velha guarda. Estavam carentes um ao outro, masculinamente falando. Na verdade não era nada de mais. Coisa de homem.
       - Quanto tempo, cara!
       - Quanto tempo, velho!
       Trataram tomar uma cerveja, logo alí, perto do escritório do Jair.
       - Então, camarada!
       - Então camarada...
       Jair chegou muito alegre em casa, nesse dia. A mulher foi imparcial:
       - Com quem estava bebendo?
       - Com o Alcides, lembra dele?
       Jair só teve tempo de se abaixar. Os cacos do abajur iam caindo da inocente parede.
       - Está louca, mulher?!
       - Traidor! Cretino! Você não vale nada mesmo!
       - Que que foi, benzinho?
       - Sabe que eu odeio a mulher do Alcides! Tinha de beber justo com esse homem? Vai começar tudo de novo.
       - Mas pra quê todo esse ódio? Qual é o problema, amor?
       - Como se você não soubesse. Se faz de santo.
       Ele não lembrava. Não mesmo. O episódio do churrasco sim, este lhe vinha rápido à memória. Mas tirando isso, nunca quis saber direito o que aconteceu. Ele e o amigo seguiram com suas vidas e só.
        No dia seguinte, Alcides liga:
        - Hoje, alí no da esquina?
        - Com cerveja, chapa!
        Se encontraram no mesmo lugar. Alcides com o olho roxo. Sabiam o que havia acontecido. Conversaram como velhos amigos que eram. Hoje não beberiam juntos. A todo caso, lógico.

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