Paulo de Faria Salgado






DEVANEIO EM VÍRGULAS

A madrugada, não o silêncio,

O cão que late, a coruja que pia,

O caminhão do lixo, a moto que ronca,

A ambulância que toca, a polícia anuncia,

A vizinha descarga, a porta que bate,

A mulher que suspira, o vento assovia,

O sono não vem, o pensamento viaja,

O tic-tac não para, os ponteiros caminham,

A ironia protege, a hipocrisia acompanha,

O tempo que passa, o espelho que mostra,

A certeza que limita, a ferida que abre,

A vida que cansa, o pouco que resta,

A esperança que vingue, na semente que fica,

A partida esperada, a chegada ignorada,

O medo da dor, a perda do amor, a saudade que leva.

Não deixo números, mas deixo letras.

Não deixo cifras, mas deixo sílabas.

Não deixo bens, mas deixo palavras.

Não deixo dívidas, mas deixo livros.

Não deixo nada, mas deixo tudo.

(Paulo Salgado – 07/2010)

CopyRight © Cepedê Sistemas & WebSites - Comércio eletrônico.