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Betimartins [ Elisabete Ribeiro ]






Uma noite no palácio do Marques das Mil Fontes

  • Uma noite no palácio do Marques das Mil Fontes
     
     
    Meu pai decidiu ir a um congresso a Trás dos Montes, recebeu um convite da Bial Laboratórios de medicamentos e pesquisa medica.Sendo eu, um citadino ferrenho, daqueles que só sabem estar em centros comerciais e tudo que seja confusão foi um verdadeiro castigo ter que acompanhar meu pai.
    Logo pesquisei sobre o local onde tinha que passar a noite e não achei nada engraçado mesmo, vi           que nem net tinha, pois os donos conservavam tudo como antigamente, fiquei pior que estragado, assim passaria melhor o tempo ali enfiado.
    Acordei logo de manha cedo, tomamos o café reforçado preparado pela Dona Francisca uma velha empregada que herdamos da família da minha falecida mãe, minha mãe faleceu muito nova tinha eu cerca de cinco anos.  Dona Francisca tomou conta da casa e de mim sendo o braço direito de meu pai e nunca entendi porque meu pai não voltou mais a casar.
    Segundo Dona Francisca ele amava demais a minha mãe e sofreu muito com a sua perda, contou ela que quase quis ir embora que só Deus para o segurar aqui neste lado.
    Foi uma longa viagem, conversamos muito parece que ali não era o meu pai, aquele homem carrancudo e mal encarado, mas sim um homem gentil diria que quase o vi sorrir, olhando para mim.
    Paramos numa bomba de combustível para abastecer nossa viatura e também almoçar alguma coisa.
    Entramos dentro do Bofete, muita gente, barulho, confusão, bastantes autocarros parados e com gente ali a comer. Estava um calor terrível, suava muito, meu pai olhava para mim e nada falava parecendo ler meus pensamentos, eu queria estar fora dali...
    Nisto vejo meu pai sorrindo, falando para mim:
    -         Calma João, normal nem pareces um rapaz da cidade, a tua confusão provoca muito mais pânico em mim que isto aqui.
    Ele tinha a sua razão, mas porque estava tão nervoso, logo saímos dali e colocamos em marcha para o Norte de Portugal que é lindo, engraçado, nunca tinha reparado na beleza do lugar, avistava arvores, suaves montanhas verdes, repletas de pequenas casas nas suas colinas, algumas engraçadas com os seus azulejos de varias cores parecendo até cômico pela falta de gosto. Avistava-se outras casas lindas com os seus jardins bem tratados, repletos de flores e belos campos cultivados e com arvores de frutas.
    Por momentos os meus pensamentos foram para a minha mãe, como teria sido aquela viagem com ela do nosso lado, porque dela, só lembro seu sorriso lindo e seus olhos azuis com a sua voz aveludada.
    Nisto escuto a voz do meu pai:
    - João, lembra quando viemos aqui com a tua mãe? Já nem deves lembrar eras tão pequenino, choraste metade da viagem ate eu estava a perder a paciência contigo, mas a tua mãe sempre carinhosa lá conseguiu cantar uma canção e adormeceste de tanto cansado de chorar.
    Respondi, quase com as lagrimas correndo pelo rosto, pois meu pai estava lembrando dela como eu.
    - Pai, porque nunca te casaste? Amavas tanto assim a mãe para nunca quereres outra mulher?
    Meu pai ficou calado por segundos, parecia eternidade, vi o seu rosto se contrair, por momentos, parecia que a lembrança ainda doía dentro de seu coração.
    -João, eu nunca casei porque nunca encontrei uma mulher como a tua mãe, ela era única e jamais podia colocar seja quem for em seu lugar, um dia vou juntar a ela e continuar a ser feliz como eu foi com ela aqui. Sabes nunca a esqueci e olhando para ti eu vejo os traços dela a cada instante, até o sorriso dela herdaste e sua forma intensa de viver a vida.
    Chegamos ao palácio, confesso que parecia um verdadeiro conto de fadas ali e que por momentos eu tinha viajado no tempo e regressado ao passado medieval.
    Logo avisto um empregado vestido de forma ridícula, parecendo meio palhaço, meio louco, sorrindo amavelmente e abrindo as portas do carro para nós sair.
    Entramos numa sala ampla, linda, devidamente reformada, com arcos de pedra, tectos, pintados com belos anjos tocando harpas e paredes com belos espelhos e tapetes, retratando as épocas de caça.
     Tudo estava de acordo com a época medieval, desde vestimentas, divertimentos como a historia passada nos conta, nada estava ao acaso somente nós hospedes estávamos fora do tempo, e  pasmados com tanta beleza.
    Ainda era cedo para o congresso do meu pai e decidimos dar uma volta pelo palácio e conhecer as belezas que aquele local tinha, fomos ate ao jardim, onde se avistava um grande lago, cheio de algas e rãs, rodeado de belas arvores tão velhas como o palácio, sentia o aroma que exaltava naquele momento, flores frescas com mistura de pinho, alfazema e jasmim.
    Os olhos do meu pai estavam estranhos, fitavam algo que diria invisível, seus pensamentos deviam estar na bela lembrança de minha mãe e dos momentos que viveram os dois, por momentos eu senti pena dele tão novo e sozinho.
    Caminhei um pouco o deixando quieto com os seus pensamentos e quis ver melhor, os recantos daquele jardim e avisto bem no fundo mesmo na beira do lago uma bela jovem vestida com um vestido branco e  antigo com o seu corpete bem apertado, parecendo que seus seios iam saltar com o leve respirar, cabelos loiros caindo em belos cachos rebeldes, rosto branco de olhos verdes quase da cor do lago. Caminhei em sua direção, mas ela sumiu parecendo ter se esfumado no ar e fiquei confuso com o que vi e até duvidando de minha mente.
    Inquieto, fiquei eu, queria descobrir quem era ela, pois vestida assim só podia ser alguém do Palácio.
    Meu pai decidiu que eram horas de ir para o congresso e entrando naquelas salas magníficas cheias de candeeiros de cristal, velas e os empregados, vestidos com calças até aos joelhos e suas meias, enfiadas por cima das calças largas com aqueles sapatos a moda antiga que mais pareciam de senhora. As camisas brancas cheias de folhos com os laços bem ordenados nas jaquetas e aquelas perucas brancas, tudo parecia saído de um livro. Só voltava a ver meu pai durante a manhã do dia seguinte, ele iria estar ocupado com os colegas e  jantar com eles e  vou aproveitar para descobrir a donzela que avistei há beira do lago.
    Andei pelo palácio sem nada descobrir e até que senti fome e fui ate a sala de jantar que era simplesmente espetacular, nunca vi nada igual parecia sair dos contos das mil e uma noites, tudo estava reluzindo, devidamente ordenado com uma beleza subtil nada era deixado ao acaso. As mesas redondas, os talheres, o cheiro da comida era intenso, tinha saltimbancos e musicas, escutava risos. Senhoras divertindo com aqueles momentos e eu procurando aquela bela jovem que vi por momentos a beira lago, mas nem sobra dela estranho não vi ninguém vestido como ela.
    Cansado quis subir para descansar um pouco, tive que ir por vários corredores e acho que me perdi por momentos. Escutei uma voz que mais parecia um anjo ou diria que canto de sereia, sentindo-me atraído para ver quem cantava assim e abri a porta de uma sala e qual o meu espanto que estava aquela jovem ali bem perto de mim e eu não sonhei e nem estava louco, ela estava ali sim e quase podia a tocar.
    Fiquei colado ao chão diria que petrificado daquele belo momento, queria falar, mas minha voz não saia da minha boca, queria simplesmente a tocar, mas a minha mão não se mexia meus músculos estavam tensos, suava, minhas pernas balouçavam, parecia um menino com medo do desconhecido.
    Ela não se mexia, era como se não desse comigo ali a observando, andou pela sala e sentou bebendo a sua bebida, de uma forma, bela com porte de uma princesa, ([por momentos ela olhou para mim e meu coração disparou de tanta ansiedade]).
    Que fazer quando de repente; ela se levanta e vem na minha direção sem retirar seu olhar do meu olhar que olhar belo, que olhos pareciam que entravam dentro de mim, seu andar, meu Deus que mulher linda e que eu faço?
    Ela se aproxima de mim, eu suando sem saber o que falar, nisto ela se aproxima e num segundo ela passa por mim, entrando pelo meu corpo dentro e saindo na porta, onde eu estava completamente paralisado, sumindo como neblina da manhã.
    Será que eu vi direito,           que ela não era real, mas somente um fantasma? Era mesmo um fantasma fiquei, paralisado, senti um frio, pela espinha, queria gritar, pedir ajuda, mas não saia a minha voz, minhas pernas não se mexiam, tentei acalmar, lembrei do meu pai quando era pequeno e tinha medo. Fechar os olhos, respirar fundo três vezes e imaginar algo que gostava muito, acalmei um pouco, quis usar o meu raciocínio e a minha lógica, mas nada podia explicar o que eu vi e senti.
    Caminhei para o meu quarto, quis dormir, mas não conseguia, agitado, inquieto nunca acreditei nos fantasmas e mesmo vivenciando uma experiência não queria acreditar e nem quero.
    Revirei vezes sem fim na cama, fechei os olhos e nada o sono parecia que estava preso nos meus medos, peguei num livro, mas nem isso me deixava concentrar, adormeci tardiamente quase dia.
    Acordei com as batidas na porta do meu quarto, era o meu pai que estava me chamando para ir tomar o pequeno almoço com ele, vesti rápido, senti conforto ao saber que ele estava ali comigo.
    Meu pai sorrindo, falou para mim:
    -João a noite parece ter sido divertida mal dormiste, já vi que não te perdeste por aqui e a tua cara não mente mal dormiste.
    Com alguma azia eu respondi:
    -Pai é deves ter razão mesmo, mas um dia te conto, hoje dirias que era louco, mas não dormi mesmo quase nada.
    O pai sorrindo não mexeu mais no assunto, logo eles arrumaram a sua pequena mala e voltaram para o seu carro.
    Arrancou lentamente dando a volta ao largo repletos de belas fontes acenando em forma de obrigado ao empregado, olhei passando mesmo ao lado do lago, qual o meu espanto que vejo a jovem acenando para mim.
    Quis fechar os olhos e dizer isto é irreal, era real eu vi nada pode apagar o que vi, mas por momentos quis ver se meu pai via alguma coisa e perguntei:
    -Pai vês uma jovem a beira do lago? Vês pai?
    Respondeu de uma forma conclusiva
    -Vejo que quê se não tem ninguém a beira lago nem uma viva alma se avista. Há a noite ontem foi mesmo desgastante filho que já andas a ver coisas.
    Sorrindo ele continua conduzindo e eu fico meio apalermado sem saber que dizer e falar foi somente um fantasma que tem demais tudo isto?
     
     Betimartins
     
     

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